
"A Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção deriva de um funcionamento alterado no sistema neuro biológico cerebral, isto significa que substâncias químicas produzidas pelo cérebro, chamadas neurotransmissores, apresentam-se alteradas quantitativa e/ou qualitativamente no interior dos sistemas cerebrais que são responsáveis pelas funções da atenção, impulsividade e actividade física e mental no comportamento humano. Trata-se de uma Perturbação e não de uma lesão como anteriormente se pensava. O cérebro de um PHDA, em forma e aparência, em nada difere dos demais cérebros, que não apresentam um funcionamento com PHDA; a diferença está no íntimo dos circuitos cerebrais que são movidos e organizados pelos neurotransmissores que, em última instância, seriam os combustíveis que alimentam, modulam e fazem funcionar todas as funções cerebrais. Assim, os neurotransmissores seriam a gasolina dos carros, as quedas-de água que geram a energia das grandes hidro- elétricas ou mesmo a energia atómica das usinas nucleares.
A compreensão do componente neuro biológico no funcionamento da Perturbação de Hiperactividade e Déficice de Atenção foi revolucionário para o tratamento desta Perturbação, uma vez que mudou a forma de pensar sobre toda a problemática vital que seus portadores vivenciam. Essa nova visão tornou-se unanimidade na comunidade médica na década de 1990 e foi o pilar gerador da eficiência que os tratamentos medicamentosos alcançaram na melhoria da qualidade de vida dos portadores de PHDA. É claro que um longo caminho de pesquisas ainda deve ser percorrido, tendo em vista que o mecanismo exacto que rege o comportamento do portador de PHDA ainda não é totalmente compreendido. Tem-se a ponta do ice berg e isto se deve à enorme complexidade dos sistemas cerebrais, em especial, o sistema atentivo, que é o principal responsável pelo estado de consciência humana. A existência traduz-se na capacidade do ser humano de atentar para si mesmo (como indivíduo único) e para todo o mundo ao seu redor. E, na verdade, esta é a essência da vida humana — relacionar-se consigo mesmo e com os outros, sem perder a individualidade e, simultaneamente, contribuir com o todo universal.
Os passos no sentido de definir a anatomia e a bioquímica dos cérebros PHDA foram de gigante, em termos científicos, pois cada um deles forneceu a certeza de que essa Perturbação não é uma simples incapacidade moral para se comportar, ou para se interessar pelo mundo ao seu redor, ou ainda, uma falta de vontade de acertar-se profissional, afectiva ou socialmente. Isso tira da fronteira da "marginalidade social" (daqueles que estão à margem da sociedade) milhares de pessoas que, se pudessem ser tratadas, orientadas e organizadas poderiam estar desempenhando suas potencialidades ou mesmo seus talentos especiais, contribuindo, assim, para uma sociedade mais aprazível de se viver.
"No longo caminho entre a arrumação genética e a entrada na escola, milhares de factores podem ocorrer de errado no cérebro de um indivíduo" (Arnold, 1995). Tal afirmação traduz bem a longa história da ciência, rumo ao entendimento de como funciona um cérebro com PHDA e seus muitos factores causais. Onde essa história se iniciou, não se sabe dizer; no entanto, a mudança no "foco" dessa questão possibilitou retirar a PHDA da esfera moralista e punitiva e levá-la para uma esfera científica e passível de tratamento. E isso é o que realmente importa.
Os diversos factores causais que estão envolvidos no funcionamento do cérebro com PHDA são:
Factores Genéticos:
Todos os estudos científicos indicam que factores genéticos desempenham importante papel na gênese da Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção. Isso é constatado por estudos epidemiológicos que mostraram uma maior incidência da Perturbação entre parentes de crianças com PHDA em comparação com parentes de crianças sem PHDA. Se bem que, até ao momento, não se dispõe de mecanismos que possam determinar a probabilidade estatística exacta de adultos com PHDA terem filhos com este mesmo funcionamento mental. Deve-se, nesse caso, afirmar que a Perturbação possui um carácter hereditário, sem um grau de probabilidade determinado.
Estudos realizados em gémeos idênticos, ou seja, que possuem o mesmo material genético, apresentaram concordância na faixa de 50%. Isso nos faz raciocinar que o factor hereditário (genético) é importante, mas não o único na manifestação do comportamento PHDA, pois, se assim fosse, a concordância entre gémeos idênticos deveria ser de 100%.
Alterações Estruturais e Funcionais na PHDA:
Os indícios mais fortes de que a Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção apresenta uma alteração na estrutura cerebral de seus portadores vem dos inúmeros estudos realizados por meio de exames de neuro imagem. Essa categoria de exames visa
obter imagens que mostrem o funcionamento do cérebro e não só sua imagem estática. Dentre esses exames, o que melhor evidência a atividade funcional das diversas partes do cérebro é o PET ou SPECT: ambos referem-se a tomografias realizadas por emissão de pósitrons, que podem visualizar tanto a estrutura, como a actividade das regiões cerebrais, em determinado momento.
As conclusões desses estudos foram unânimes em descrever uma hipo perfusão cerebral localizada mais significativamente na região pré-frontal e pré-motora do cérebro. Essa hipo perfusão significa que a região frontal, nas pessoas com PHDA, recebe um menor aporte sanguíneo do que deveria e, como consequência, há uma diminuição do metabolismo nesta região, que, ao receber menos glicose (oriunda do sangue), terá menos energia e funcionará com seu desempenho reduzido. Se nos lembrarmos de que o lobo frontal é o principal responsável pela acção reguladora do comportamento do ser humano, podemos avaliar que o seu hipo funcionamento está directamente ligado às alterações funcionais apresentadas na Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção.
A forma como o lobo frontal regula o comportamento, ocorre pelo exercício das seguintes funções: fazer manutenção dos impulsos sob controle; planear acções futuras; regular o estado de vigília; "filtrar" estímulos irrelevantes, que são responsáveis por nossa distracção; accionar as reacções de luta e fuga; estabelecer conexão directa com o sistema límbico (centro das emoções), com o centro da fome e da sede; regular a sexualidade, o grau de disposição física e mental e muitos outros impulsos de aspecto fisiológico.
Em última análise, conclui-se que a acção reguladora do comportamento humano é feita pelo lobo frontal, que exerce uma série de funções de carácter inibitório, cabendo a ele puxar o freio de mão do cérebro humano no que diz respeito aos seus pensamentos, impulsos e velocidade de suas actividades físicas e mentais. E é justamente isso que falha no cérebro do portador de PHDA, seu filtro ou freio perde eficácia reguladora por receber menos glicose, sua fonte maior de energia, em função da já citada hipo perfusão sanguínea da região frontal. Sem "freio", o cérebro com PHDA terá uma actividade muito mais intensa, será bombardeado por uma tempestade de pensamentos e impulsos numa velocidade muito acima da média.
Isso irá ocasionar uma grande desorganização interna que, muitas vezes, encobrirá potencialidades, aptidões, talentos e muita inteligência, num grande emaranhado mental.
Foi visto até aqui que a sede estrutural da Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção está localizada no lobo frontal; no entanto, não se pode esquecer que não existe um compartimento estanque na organização cerebral, todas as regiões interligam-se, formando uma grande rede de informações que constitui a base do comportamento humano. Essas informações são passadas de neurónio a neurónio, de regiões a regiões, pelos neurotransmissores que irão determinar a activação ou a inibição destas, modulando, assim o agir dos indivíduos.
No caso específico da PHDA, os neurotransmissores mais participativos, nesse processo de desregulagem no funcionamento do lobo frontal, seriam as catecolaminas, que incluem a noradrenalina e a dopamina. Em 1970, C. Kornetsky descreveu sua hipótese das catecolaminas na tentativa de explicar os sintomas da PHDA. Sua hipótese foi postulada a partir da observação clínica de que estimulantes como a Ritalina e algumas anfetaminas produziam grande efeito terapêutico em portadores de PHDA. Partindo do conhecimento científico de que esses estimulantes afectam directamente os sistemas dos neurotransmissores noradrenalina e dopamina, aumentando a quantidade destes, Kornetsky passou a acreditar que o funcionamento Phda seria, talvez, consequência de uma baixa produção ou uma subutilização desses neurotransmissores. Essa hipótese continua sendo bastante defendida nos dias actuais, mesmo que muitos estudos recentes apontem para a participação de outros neurotransmissores no funcionamento bioquímico do cérebro PHDA. A serotonina, estrela na bioquímica da Depressão, parece ter seu papel de coadjuvante nessa dança tão complexa que ocorre nos cérebros de pessoas com PHDA. Só o tempo poderá nos dizer, com suas verdades inevitáveis, o papel de cada neurotransmissor nessa orquestra PHDA; entretanto, os "sinais" de que se dispõe hoje, dão a certeza de que os sistemas neuroquímicos (da química cerebral) encontram-se alterados nas pessoas com PHDA, e nisto reside a origem do problema.
Factores Ambientais (Externos):
Além da hipótese genética, a ocorrência da PHDA está muitas vezes correlacionada a complicações durante a gravidez e no parto, inclusive com relatos de traumatismos neo natais (Bastos e Bueno, 1999). Nesse aspecto, as alterações encontradas nos sistemas dopaminérgicos, serotoninérgicos e outros eventuais neurotransmissores não seriam provocadas por registros individuais herdados de seus antepassados (origem genética), e sim por acidentes ocorridos durante o período gestacional ou posterior a este. Como exemplo dessa situação, podem-se citar: hipóxia (privação de oxigenação suficiente) pré e pós-natal, traumas obstétricos, rubéola intra-uterina e outras infecções, encefalite e meningite pósnatal, traumatismo cranioencefálico (TCE), deficiência nutricional e exposição a toxinas. Corroborando-se a influência desses factores externos no surgimento da PHDA, encontram-se inúmeros trabalhos que estabelecem uma correlação bastante significativa entre crianças que têm peso corporal muito baixo ao nascerem e uma probabilidade maior de apresentarem na idade adulta dificuldades ao nível da atenção e comportamentais bem marcadas.
Visão Multifatorial:
Como se pôde observar, o conhecimento sobre a origem da PHDA ainda é limitado; por essa razão, deve-se ter a humildade de saber que a chave que abre o funcionamento da PHDA — e que talvez não seja a única — seria como uma ferramenta capaz de abrir várias portas e deixar passar conteúdos distintos que, "misturados", em proporções individualizadas, permitiriam a formação das diversas estruturas da PHDA.
Essa visão parece-nos apropriada, uma vez que nenhuma hipótese sobre a origem do funcionamento da PHDA mostrou-se, por si só, capaz de explicar todos os casos de PHDA. Destaca-se ainda o facto de que o stress provocado por ambientes destruturados, ou mesmo o aumento de demandas no desempenho pessoal ou social, podem exacerbar em grande escala os sintomas da PHDA, bem como factores stressantes somados podem alterar a bioquímica de um cérebro geneticamente predisposto e levá-lo a manifestar, tanto em carácter qualitativo como quantitativo, a tríade de sintomas a um tal nível que o indivíduo passaria a apresentar Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção de facto, passando a viver com a influência quotidiana desse funcionamento. Essa visão abre a possibilidade de se identificar e, consequentemente, ajudar pessoas com sintomas de PHDA sem história genética, bem como prestar orientação aquelas que possuem carga genética, mas que podem não desenvolver a Perturbação em função de viverem em um ambiente bem estruturado. Com isso se pode compreender que a genética não se trata de uma fatalidade, mas sim de uma probabilidade, de facto, das mais importantes. No entanto, sua manifestação sofre influências externas que poderão contribuir para que esta seja favorável ou desfavorável à vida do indivíduo. Essa compreensão significa uma mudança radical em relação à manifestação genética da neurobiologia humana. Tudo indica que a bioquímica cerebral possui uma espécie de plasticidade que a torna passível de mudanças a cada momento vital. Assim sendo, a biologia cerebral que se possui ao nascer (com fortíssima carga genética), pode sofrer alterações de intensidades variadas em resposta ao ambiente externo. Ou seja, acontecimentos vitais, como traumas físicos ou psicológicos muito dolorosos, podem deixar "cicatrizes" no corpo, na alma e também na estrutura funcional da massa cerebral.
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